Deixa-te de notas prévias

Hoje venho falar de um tema que me tem chamado bastante à atenção desde o início do ano. A nossa necessidade de à partida gerirmos as expectativas dos outros em relação a algo que façamos. Normalmente, quando apresentamos algo que tenhamos feito a alguém temos tendência para começarmos por nos defender com algumas notas prévias.

Trouxe este conceito de “notas prévias” de um workshop de escrita de viagens que fiz no início do ano e que desde aí me fez imenso sentido e comecei a reparar nelas nas diversas interações a que vou assistindo.

Isto surgiu porque nesse curso nós tínhamos de escrever textos e depois no final líamos o que tínhamos escrito para a turma. Vários de nós, antes de começarmos a ler, deixávamos sempre uma nota sobre aquilo que tínhamos escrito. O que acontecia é que nesse momento os outros geravam uma expectativa prévia em relação àquilo que iriam ouvir. Provavelmente estariam à espera de algo menos bom e depois no fim acabavam surpreendidos pela positiva. É exatamente por esta questão que fazemos notas prévias sobre o nosso trabalho. Começamos por baixar as expectativas da nossa audiência e assim se formos melhores agradamos pela positiva, se não formos fantásticos mantemo-nos dentro da expectativa que nós próprios criámos. Obviamente que, por norma, fazemos isto de forma inconsciente. É apenas um meio que temos de nos defender perante as nossas inseguranças e de lidarmos com o medo do julgamento do outro.

Mas isto acontece nas mais variadas situações. Atualmente almoço com a minha avó quase todos os dias. A minha avó cozinha mesmo muito bem. Mas quase todos os dias tem uma nota prévia. Costumo ouvir coisas como “É hoje que não vais gostar do almoço.”, “Hoje não sei se isto chega.”. E estas notas prévias são sempre por baixo. Ela nunca me disse “Hoje isto está mesmo bom, vais adorar.” E, na verdade, é normalmente isso que acontece.

Quando andava no secundário, tínhamos por hábito depois dos testes falarmos como tinha corrido a cada uma. Eu sempre fui boa aluna, mas era frequente os testes mais teóricos me correrem mal. Eu acreditava genuinamente que me tinha saído mal. E dizia isso. Só que depois quando saiam as notas o resultado era diferente. Eu acabava por ter uma ótima nota e muitas vezes superior à das minhas colegas a quem o teste lhes tinha corrido bem. Isto aconteceu algumas vezes, ao ponto de até uma professora gozar comigo uma vez e me dizer que eu tinha tido 7 quando eu tive 17. Até que eu percebi que aquilo soava mal. Porque parecia que eu me estava a armar. E desde aí que nunca mais mencionei a ninguém como me tinha corrido o teste. Sempre que me perguntavam, eu dizia “Logo se vê.”.  

Isto para dizer que a perceção que nós temos sobre aquilo que fazemos não quer dizer que esteja correta e também não quer dizer que seja a mesma perceção que os outros vão ter. São apenas perceções e cada pessoa tem as suas. Mas seja como for, na minha ótica, nada ganhamos quando nos tentamos defender à partida gerindo por baixo a expectativa dos outros. Isso pode não só soar a falsa modéstia como no caso da minha história, como vai condicionar o feedback do outro. E, sim, o feedback do outro pode ser uma excelente ferramenta para evoluirmos. Cabe-nos a nós saber geri-lo da melhor forma.

Se demos o nosso melhor, isso deve ser suficiente para estarmos satisfeitos connosco mesmos. Do outro lado vai haver uma opinião boa ou uma opinião má consoante os padrões próprios dessas pessoas. Podemos receber feedback positivo ou outro menos positivo. Seja como for, o importante é usarmos isso para evoluir e não para nos mantermos confortáveis na nossa pouca autoconfiança.  Creio que a maneira certa de olharmos para a reação do outro é exatamente usarmos isso para crescer. Sempre tendo a noção que do outro lado está apenas uma perceção de alguém diferente de nós e que não podemos deixar que isso nos molde, mas cabe-nos a nós fazer a leitura certa e aproveitarmos tudo aquilo que nos dizem para continuarmos a desafiar-nos, dar o nosso melhor e evoluir.

Por isso, a minha sugestão é que te deixes de notas prévias e que aceites o feedback como um aliado no teu caminho de evolução. Acredito que assim os comentários positivos vão saber-te ainda melhor e os negativos vão levar-te ainda mais longe.

2 thoughts on “Deixa-te de notas prévias

  1. Olá Neuza. Achei muito interessante esta reflexão e fez muito sentido para mim, apesar de nunca ter parado para pensar sobre isso. Mas consegui imediatamente identificar-me no que toca ao meu trabalho fotográfico, pois tenho sempre a tendência de antecipar as críticas negativas e por isso dou notas prévias de que x não ficou perfeito, y não saiu como eu queria etc. E muitas vezes, já fiquei com a sensação de que se eu não dissesse nada, as outras pessoas não teriam reparado. Por isso vou seguir o teu conselho e deixar de dar notas prévias sobre a minha fotografia 😉

    1. Olá Beatriz, que bom que te fez sentido e obrigada pela partilha. De facto é inconsciente fazermos isto, mas quando tomamos consciência começamos a perceber que não faz sentido fazê-lo nem nos ajuda em nada. Beijinho grande

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