Empreendedorismo como processo de autoconhecimento

Depois de ter passado por um profundo período de autodescoberta durante a minha viagem de 10 meses sozinha pelo mundo, não esperava que tanto mais houvesse por descobrir sobre mim mesma. Mas a verdade é que esta coisa de nos autoconhecermos é um processo para a vida.

O meu irmão costuma usar uma expressão várias vezes que é “o Homem e a sua circunstância”. O que significa que aquilo que somos e que aquilo que fazemos revela-se perante as circunstâncias em que estamos inseridos. E é verdade que a minha viagem proporcionou-me um ambiente perfeito para me conectar comigo mesma e olhar bem dentro de mim, mas por outro lado retirou-me do dia a dia. E eu que sou uma feroz adepta da experiência, cada vez tenho mais a certeza que é através dela que mais nos conhecemos.

O meu avô morreu com uma doença terminal e, antes dele morrer, às vezes imaginava como iria reagir perante a sua morte. Mas por mais que nós nos conheçamos muito bem, é impossível sabermos como vamos reagir perante uma crise emocional como a morte de alguém que amamos muito. Sobretudo, se nunca antes enfrentámos a morte de alguém próximo. De facto, estava longe de estar preparada para aquele momento e estava longe de imaginar o que viria de mim à tona.

Já falei aqui que as situações de crise são um dos gatilhos para a mudança. E um dos motivos é exatamente esta capacidade de nos confrontarem com partes de nós que não vemos no nosso dia a dia.

Na mesma lógica, também escrevi sobre a aventura como gatilho para a mudança. Foi dessa forma que me transformei quando fui viajar. A minha viagem permitiu-me chegar mais facilmente a lugares bem fundo dentro de mim e isso foi fundamental para a minha transformação e para o meu alinhamento. No entanto, a Neuza que voltou transformada do outro lado do mundo nunca tinha experienciado a vida mundana.

Voltar a Portugal não foi voltar à minha antiga vida. Foi voltar para construir uma nova vida. Fiz as minhas escolhas e decidi que queria criar o meu próprio negócio. Comecei assim uma nova aventura – construir sozinha um negócio online. O que eu não sabia e não esperava é que esta aventura fosse um novo processo de autodescoberta.

Aventurar-me no empreendedorismo a solo foi um verdadeiro abanão. Acho que no fundo ainda continua a ser. Agora só estou mais consciente desse efeito. Esta minha nova realidade confrontou-me com situações novas que trouxeram ao de cima muitas novidades sobre mim mesma. Obrigou-me a olhar para partes de mim que eu ainda não tinha olhado.

Durante algum tempo tentei ignorar e tentei não ver. Sabia que algo estava errado, mas coloquei umas palas nos olhos e só estava focada em seguir em frente. Na minha cabeça só via confusão, mas já sei que a confusão é só uma estratégia do nosso ego para nos dar uma desculpa para não olharmos para aquilo que evitamos ver. Foi nesse “estou confusa” que me refugiei e me obriguei a continuar a andar para a frente, mesmo sem certezas sobre o caminho. Até que chegou uma altura em que a dor já era tanta que não conseguia mais disfarçar. Foi nessa altura que percebi que sim ou sim tinha de parar e olhar para dentro.

Parei, olhei, analisei os sintomas e fui à procura das causas. Encontrei três pontos-chave. A construção do meu negócio e da vida a ele associada não me estavam a permitir tirar partido de algumas das minhas principais características de personalidade e talentos, não me estavam a permitir viver alinhada com alguns dos meus valores e não me dirigiam a uma visão de futuro.

Isto agora parece super óbvio. Talvez se estejam a questionar como é que alguém que trabalha exatamente com estas coisas e procura ajudar outras pessoas neste alinhamento se deixa desalinhar desta forma. Pois é, mas esse foi precisamente outro fator. Eu estava demasiado preocupada em ajudar os outros e esqueci-me de olhar para mim. Estava a carregar os outros em esforço, mas continuava. Mas já todos ouvimos que para cuidarmos bem dos outros temos de cuidar primeiro de nós, certo?

Só quando me apanhei a não gostar daquilo que estava a fazer é que eu acordei para a vida. Como é que eu me tinha colocado naquela situação? Foi aí que comecei a olhar para trás. Foi aí que me que me questionei por que raio estava eu a fazer aquilo. Qual foi a razão que me levou a querer construir este negócio? Nesse momento percebi que o problema estava aí.

Em agosto de 2018 alinhei-me brutalmente comigo mesma e construí uma visão clara para a minha vida. Só que aquilo que eu acabei por começar a construir já não convergia para essa visão. Algures pelo caminho essa visão perdeu-se. Eu perdi a minha visão de vida. E se houve coisa que eu descobri neste processo é que eu preciso profundamente de ter uma visão clara para a minha vida. Eu preciso de objetivos claros. Eu preciso saber que aquilo que eu estou a fazer tem um fim maior.

Foi exatamente essa falta de visão que me fez há 3 anos entrar num estado depressivo e bater no fundo. Foi essa falta de visão, foi viver uma vida desalinhada dos meus principais valores e foi nem fazer ideia de quem eu era e de quais eram os meus dons e talentos.

Estão a perceber que há aqui um padrão, não estão?

A parte boa disto tudo é que estes últimos 3 anos trouxeram-me muita coisa. Sobretudo muito autoconhecimento e muitas ferramentas de alinhamento. Foi isso que me permitiu voltar a encontrar os meus principais valores e perceber que eles tinham sofrido alterações desde há um anos atrás. Foi isso que me permitiu identificar quais as minhas características que eu não estava a respeitar e quais os meus talentos que eu não me estava a permitir manifestar. Foi isso que me permitiu desenhar a minha visão de futuro. E depois deste trabalho foi claro perceber que tinha de mudar algumas coisas para voltar a viver alinhada comigo mesma. A partir daí foi muito mais fácil olhar para o meu negócio e decidir o que queria fazer dele.

E uma das grandes vantagens de trabalhar por conta própria é exatamente esta – podermos alterar o nosso negócio sempre que queremos ou faz sentido fazê-lo. Essa liberdade de mudar e das minhas decisões de mudança não afetarem ninguém, além de mim mesma, é talvez a principal razão pela qual decidi que trabalhar para mim mesma e sozinha é o estilo de trabalho que mais se adequa a mim.

Tem sido este processo de desconstrução e alinhamento que tenho andado a viver nos últimos tempos. E agora sinto-me pronta para trazer devagarinho as mudanças que considero necessárias por aqui. Vêm muitas coisas novas por aí, a seu tempo. Para já vou lançar um novo serviço no próximo dia 27 de setembro. Espero com ele conseguir ajudar várias pessoas e estar também em perfeita sintonia comigo mesma. Porque acredito que para darmos o melhor de nós aos outros temos de estar alinhados com quem somos.

E por aí, estás a viver em alinhamento com quem realmente és ou continuas a evitar olhar para as tuas dores?

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